Li esses dias uma entrevista do subeditor de Esportes do Correio Braziliense, José Cruz, especialista em política esportiva e que acompanha de perto os bastidores do Ministério do Esporte há mais de 15 anos, com duas olimpíadas no currículo – a de Seul, em 1988, e a de Sydney, em 2000. Cruz faz um diagnóstico desolador para um país que, não obstante suas desigualdades sociais, reivindica o direito de sediar os jogos de 2016.
Segundo ele, o governo federal faz o seu papel ao abastecer os cofres das entidades esportivas, mas se omite ao não participar da gestão desses recursos e ao deixar de implementar uma política desportiva pública, concentrando dinheiro e poder nas mãos do COB.
José Cruz acredita que o fraco desempenho da delegação brasileira em Pequim causará ao menos dois efeitos: reduzirá as chances da candidatura do Rio a sede olímpica e levará o Ministério do Esporte a acompanhar mais de perto a definição de prioridades pelos cartolas.
Leia trechos da entrevista :
Congresso em Foco – O desempenho do Brasil nos Jogos Olímpicos reflete de alguma maneira o investimento público feito no esporte brasileiro?
José Cruz – Não reflete, pelo contrário. Antes de a delegação brasileira embarcar, nossas autoridades do esporte e o presidente Lula festejavam o fato de estarmos enviando a Pequim a maior delegação de todos os tempos, com 277 competidores. Com maior delegação, esperava-se que os resultados também fossem melhores, mas não estão sendo. Isso não repercute os investimentos feitos nos últimos oito anos, nos últimos dois ciclos olímpicos.
Por quê? Não faltou dinheiro nesse período?
Até o ano 2000 os investimentos públicos no esporte eram muito escassos. O que são investimentos públicos no esporte? Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios, Petrobras, Infraero, o orçamento público federal e, de outra parte, a Lei Agnelo/Piva, que destina 2% das loterias federais para o esporte olímpico e paraolímpico. A partir de 2001, com o advento da Lei Agnelo/Piva, o esporte olímpico e paraolímpico passou a receber mais recursos. No ano passado só o Comitê Olímpico Brasileiro recebeu em torno de R$ 80 milhões. Nos últimos sete anos, foram em torno de R$ 500 milhões. É um dinheiro expressivo, com o qual nunca se contou. Esses valores ainda são acrescidos dos patrocínios das estatais. O Banco do Brasil patrocina o vôlei, o Robert Scheidt, o futsal, que não é modalidade olímpica, os Correios patrocinam a natação, a Infraero patrocina o judô e, assim, sucessivamente. A cúpula dos atletas de elite está bem suprida. Em 2006 tivemos um reforço em cima desses recursos públicos com a nova Lei de Incentivo ao Esporte, que, por meio de isenções fiscais, rende cerca de R$ 300 milhões anuais para o esporte. Logo em 2007, o COB conseguiu captar no ministério mais R$ 27 milhões para a preparação final da delegação brasileira aos jogos de Pequim. Além disso, nós temos a Bolsa Atleta, que atende cerca de 2,5 mil atletas. Nossos atletas nunca estiveram tão providos de recursos como nos últimos dois ciclos olímpicos. Então não nos faltam recursos.
Se não é mais dinheiro, qual é o problema?
Costumo dizer que temos fartura de recursos, mas está faltando gestão. Não que o dinheiro esteja sendo desviado, não estou fazendo acusação. O dinheiro é público, mas sua gestão está concentrada no Comitê Olímpico e no Comitê Paraolímpico Brasileiro. E essas instituições, que são entidades civis, gastam os recursos de acordo com as prioridades que elas fixam, sem a participação de nenhum representante do Ministério do Esporte. Ora, se o dinheiro é do governo federal, o Ministério do Esporte deveria ter participação na definição das prioridades dos gastos desse dinheiro.
Quer dizer, a continuar dessa maneira, não adianta destinar mais recursos para o esporte?
Na primeira década do novo século, suprimos uma carência de recursos e investidores no esporte, mas falta gerenciamento, participação do Estado, definição de políticas, envolvimento de municípios, estados, escolas e universidades. Hoje está muito concentrado no governo federal e não há definição sobre o papel de estados e municípios. Desses recursos que saem para o COB, os atletas reclamam que o dinheiro não chega para a base, a iniciação. Os atletas jovens só vão receber recurso quando conseguirem um grande resultado nacional. Temos situação de atletas que foram pra Pequim e só começaram a receber recursos quatro meses antes da Olimpíada. Nosso melhor velocista, que não chegou nem à semifinal dos 100 metros, é um amazonense que treina em São Paulo. Para treinar lá, ele teve de vender a aliança dele e da mulher. Estamos tratando apenas do atleta de elite, que já está pronto. Esse é suprido pelo recurso público. O atleta da base não recebe nada.
O poder público é omisso, então?
Se, por um lado, o governo abre seus cofres e abarrota o esporte de recursos, de outro, ele é omisso. Não só em não participar da gestão desses recursos como também em não fazer política pública de esporte. O que quer dizer isso? Nós não temos hoje a educação física na escola, que é o ponto de partida para identificar um atleta. Nós temos no Brasil 33 milhões de crianças em idade escolar. Se pegássemos 0,1% desse contingente, teríamos o potencial enorme de 33 mil crianças para poder identificar ali possíveis talentos no esporte. E isso poderia ser aplicado na cultura também. E, ao não ter sua política para o desporto escolar, o governo também infringe a própria Constituição, que em seu artigo 217 diz que os recursos públicos destinados ao esporte devem ser aplicados prioritariamente no desporto escolar. E não é isso que acontece, o dinheiro é aplicado no desporto olímpico, de alto rendimento, naquele que, em outros países, é abraçado por poderosos patrocinadores. No Brasil não temos patrocinadores de peso investindo, salvo algumas exceções.
E como fica a renovação dos atletas brasileiros nesse cenário?
Não temos renovação da equipe. Ficamos apostando nas mesmas modalidades e nos mesmos nomes. A vela, o vôlei, o futebol, a natação… A única medalha de ouro que nós tivemos na natação veio de um atleta brasileiro que treina nos EUA com um técnico australiano e que não tem patrocínio. Ele ganhou não exatamente porque treina nos EUA, isso é questionável. Mas é que no exterior os atletas têm maior número de competições. Ele está treinando e competindo com vários atletas que são adversários dele nos campeonatos mundiais e na Olimpíada. No Brasil nossos eventos são muito fracos, vivemos competindo com nossos próprios atletas. O atletismo ainda vai pra fora, mas faz isso muito pouco. No Brasil, o governo tem de assumir sua parte. Se você pegar Cuba e EUA, que são dois extremos em vários sentidos, vai ver que eles têm algo em comum. Tanto em Cuba quanto nos EUA, o esporte começa na escola, assim como nos países comunistas. Não que a escola tenha a obrigação de formar o atleta, mas é lá que se pode identificar se ele pode ser do atletismo, da natação ou do tênis de mesa. Nós não temos isso no Brasil, uma falha que vem de muitos e muitos anos. Na Europa, a escola é outra: é o clube. No Brasil nós já tivemos clubes sociais que faziam esse papel de acolher o atleta. Hoje contamos nos dedos os clubes que fazem isso, porque a maioria decidiu dar prioridade ao seu associado em detrimento do atleta. Nós vivemos essa incongruência de termos recursos e não termos política, objetivos e projetos.
O COB errou na definição das prioridades para estes jogos olímpicos?
Acho que sim. Os resultados mostram isso. O COB tem profissionais da mais alta qualidade para fazer essa preparação, a maioria é ex-atleta, conhece bem o que é a vida de um atleta olímpico. O que se observa é que as confederações é que falharam nos seus planejamentos. As renovações foram inexpressivas. No salto com vara foi uma tristeza o desempenho do brasileiro. Na canoagem, no remo, deu pena. Hoje as estatais patrocinam 14 modalidades. O tênis acabou de receber o patrocínio dos Correios. A gente observa que o esporte brasileiro nunca esteve com o cofre tão cheio. Quase a totalidade desses recursos é público. Nós precisamos que se sentem os ministérios do Esporte, da Saúde e da Educação e que façam um projeto de iniciação no esporte a partir da escola. Com essa tripla atuação de ministérios fortes e afins, teremos resultados para começar a identificar os atletas e encaminhá-los. E não cabe isso ao governo federal fazer, porque os estados e os municípios também têm de fazer sua parte. Temos ainda o Comitê Olímpico, as confederações e as federações. Toda essa estrutura do esporte que, pela Lei Pelé, se chama sistema nacional do esporte, tem de ser participativa. Hoje a coisa está muito concentrada na mão do Comitê Olímpico Brasileiro.
Mas todo esse problema não é de foco? Em vez de se ver o esporte como fator de inclusão social que, por conseqüência, pode se refletir em resultados olímpicos, o país não trata a prática de desportiva apenas no nível da competição?
Essa tese é muito discutida no mundo inteiro. Se não é formador de atleta, o esporte é no mínimo formador de caráter. Nos projetos sociais dá pra ver onde estão aqueles atletas que têm potencial. Temos 1.550 AABBs (Associação Atlética Banco do Brasil), uma área física disponível para esporte espetacular, e ela é desprezada pelo próprio governo. O governo poderia até subsidiar o BB para que essas AABBs fossem aproveitadas. Temos também áreas do Sesi para natação, vôlei, atletismo. O que falta é a tal política, definir onde entra o município, onde entra o estado, onde entra a União, onde entra o Comitê Olímpico Brasileiro. A Lei Agnelo/Piva destina também recursos para o desporto escolar e o universitário. Quem gerencia e quem administra esses recursos é o COB. Não deveria estar na mão do COB. A própria olimpíada escolar é atividade pedagógica própria daquela idade, e não do comitê que tem a responsabilidade de organizar a participação na Olimpíada. Há uma desordem nessa estrutura do esporte brasileiro, uma concentração excessiva de recursos no COB.
O governo federal destinou R$ 1,5 bilhão para a realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio. Um ano depois, muitas das obras construídas estão abandonadas. O governo embarcou de vez na candidatura do Rio a sediar a Olimpíada de 2016, um evento incomparavelmente maior. Isso não é preocupante?
Os equipamentos abandonados do Pan vêm mostrar a falta de política que nós temos. Já se passou um ano e não trouxemos um grande evento pra cá. Para construir o velódromo, prática em que não temos nenhuma tradição, trouxemos madeira da Sibéria. O velódromo está completamente abandonado. O próprio Estádio Olímpico, o Engenhão, foi arrendado a preço de banana para o Botafogo. O Parque Maria Lenk agora vai ser administrado pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), mas como vão manter aquilo lá? Lá tem centro de treinamento? Tem garotos nadando lá? Não tem. Não adianta termos dinheiro e obras se não houver projetos e políticas, se não definirmos o que queremos com o esporte com as escolas e as universidades, que poderiam estar atuando, outro desperdício. Temos áreas no Rio espetaculares que não estão sendo aproveitadas. Em contrapartida, já falamos em 2016! E o governo abraça a causa, porque vai ter obras, e obras caríssimas. Com certeza, um novo estádio olímpico vai surgir. Não vão querer remodelar o Maracanã. E pensam dessa forma mirabolante em detrimento do mais elementar do esporte, que é a formação do atleta. Não pensam no ser humano, no jovem, no atleta, na sua formação de caráter como homem. Pensam em construir, construir e construir.
O resultado pífio do Brasil em Pequim enfraquece a candidatura do Rio?
Acredito que sim. Enfraquece, porque o COI quer manter acesa a chama do resultado, do recorde. Isso falta ao Brasil. Você vê a China detonando os EUA no quadro de medalhas. Em terceiro lugar aparece a Grã-Bretanha, que vai sediar os jogos em 2012 e já mandou uma equipe muito forte. A Austrália, que sediou em 2000, está em quinto lugar. A Coréia, que também sediou Olimpíada, está em sétimo. Eles não desmancharam, mantiveram o trabalho e estão hoje entre os dez primeiros do mundo. Não adianta agora dar explicações. A verdade é essa.
Os resultados do Pan, no Rio, não foram ilusórios? A imprensa não contribuiu para criar uma falsa expectativa no público ao superdimensionar as chances de determinados atletas?
Porque o resultado dos Jogos Pan-Americanos foi ilusório. A imprensa brasileira é muito alvissareira, muito torcedora antes de ser analista e crítica. Agora mesmo tivemos vários recordes sul-americanos na natação de atletas que não foram nem para a final. Somos tão inexpressivos em nossas marcas que um recorde sul-americano não vale uma final em determinadas provas. Não que a gente não tenha potencial. Mas é aquilo que disse o César Cielo: está faltando prova forte no Brasil. No contexto geral, temos de nos perguntar: nossos técnicos estão preparados adequadamente? As confederações têm de trazer eventos fortes com calendários fortes, senão vamos continuar com nossos atletas competindo contra os mesmos. Isso não dá parâmetro nenhum. O resultado é esse que estamos vendo, lamentavelmente.
Falta mais investigação no jornalismo esportivo?
Com certeza, falta. Não é raro ver os desmandos feitos com o dinheiro do esporte. No próprio Pan, do Rio, isso aconteceu. O TCU conseguiu identificar o superfaturamento de um equipamento para identificar crachás de 16.000%. Não foram 16%! Mais recentemente identificaram vários serviços que foram pagos com dinheiro público e não foram prestados, vários produtos comprados e não entregues. O ministro Marcus Vilaça vai apresentar um relatório no TCU mostrando que os auditores encontraram mais de 250 caixas com aparelhos de ar condicionado fechadas, pagas e não instaladas. Ou iam ser devolvidas para a empresa, ou iam vender para o mercado negro. Este é o país que quer sediar a Olimpíada. Ora, se não há seriedade com o dinheiro público no Pan, como é que podemos, sem explicar isso, já pensar em uma Olimpíada, que é cinco vezes maior?
Com esses resultados ruins na Olimpíada, apesar do aumento dos investimentos públicos, o senhor acredita que haverá uma mudança na relação do governo com o COB?
O governo tem o Conselho Nacional do Esporte, que tem representatividade dos atletas e dos dirigentes e que vai ter de fazer uma avaliação. Espero que a partir daí o governo tome providências. Tenho observado que já há uma troca de farpas entre o ministro Orlando Silva e o COB. O presidente Lula não fez cobrança de medalha. Mas o ministro fez indiretamente. Nunca receberam tantos recursos, nunca tivemos uma delegação tão grande, o resultado terá de ser proporcional, imaginava-se. E não foi. Tenho certeza de que o ministro Orlando Silva, que é um político jovem e tem se mostrado atento às questões do esporte, na volta, vai tentar dar um reordenamento nessa estrutura do esporte brasileiro para que esses recursos sejam mais bem aproveitados. Se isso não acontecer, será um desmando total.
Acompanhe a entrevista na íntegra : http://www.ariquemesonline.com.br/textos.asp?codigo=1293